Toni Packer- em seu Livro "O
Milagre do Agora."
Mágoa e defesa
"Quando há magoa, é possível a energia acumular-se em consciência indivisa
- muito, muito quieta, aberta, indefesa, vulnerável? É uma descoberta incrível
quando essa consciência tem a oportunidade de operar livremente. Não é
necessário defender-se! O que é magoado e defendido é a memória."
Um dos problemas recorrentes de todo ser humano é a mágoa, magoar-se, já ter
sido magoado antes, o temor de ser de novo e todas as medidas defensivas que o
cérebro e o organismo tomam para protegerem-se de mágoas presentes e futuras.
Nenhum retiro termina sem que questionemos, com paixão e a intensidade: o que
fica magoado quando magoamos?
É possível examinarmos todo o processo de ficarmos magoados com um senso de
grande premência, exatamente enquanto isso acontece, questionando o que está
ocorrendo, permanecendo com ele, permitindo que se elucide revele
completamente?
No momento em que somos magoados é possível observação e escuta instantânea?
Contudo, magoar-se continua grandemente inquestionado e, com isto, surgem a
defesa e a proteção automáticas contra a mágoa. Existe medo de enfrentar tudo
isso diretamente no momento em questão? Ou, às vezes, existe uma de consciência
daquilo que está acontecendo? Talvez haja, mas será que é imediatamente seguida
pelo pensar e sentir: "Eu não quero estar em contato com toda esta coisa
dolorosa”? O temor de enfrentar a mágoa, de viver com magoa, de passar por ela,
e o medo de magoar outra pessoa enquanto estivermos enredados em nossa própria
mágoa mantém o corpo-mente preso na dor e na dormência, em conflito e numa
busca incessante de fugas. Então, neste exato momento, é possível consagrarmos
a quantidade de tempo e energia que são necessários para examinar a mágoa?
O cérebro pode dizer “não me sinto magoado neste instante, então, como posso
examinar isso?”. Não obstante, normalmente a magoa encontra-se não muito abaixo
da superfície. A memória pode evocá-la bem facilmente.
Ao investigá-la, nosso primeiro impulso normalmente encontrar uma explicação
para a magoa e uma causa. O cérebro esta sempre buscando explicações para o que
aconteceu e por que aconteceu. Já que esta parece ser sua maneira preferida de
investigar, é possível deixar que vá em frente, sem maiores atenções para
aquilo que esta acontecendo de um modo mais amplo e mais abrangente?
O cérebro não somente anseia por explicações e por encontrar causas, mas também
por proteger e defender a imagem que ele construiu do “eu”. Ele protege e
defende o “eu” encontrando erros em outra parte. É possível ver isto enquanto
esta ocorrendo?
Procurando uma “causa” da mágoa, encontrando uma no passado recente ou remoto,
e, então, explicando, justificando, defendendo, censurando, atacando ou
retraindo-se numa couraça autoprotetora - tudo isso acontece em pensamento, na
fantasia.
O cérebro é capaz de continuar a examinar fitas de vídeo e trilhas sonoras
internas por horas, dias ou anos, repisando o que aconteceu, por que aconteceu,
e o que poderia ou deveria ter acontecido em vez disso. Dessa maneira ele
permanece enredado num circuito de sua dor, emoção, conflito e retração. Tudo
isso faz parte da magoa. Estamos juntos nisso? E possível olhar para isso tudo,
e não apenas ler a respeito rapidamente?
A consciência de todo o processo consegue abrir caminho através da confusão?
Vamos começar do inicio. Alguém me critica duramente, e isso me magoa
imediatamente. Por quê?
Ser criticado evoca todo tipo de pensamentos e sensações sobre mim mesma na
presença do outro - constrangimento, humilhação, rejeição, culpa, sentir-se
inútil etc. A pessoa sente-se instantaneamente ameaçada, em perigo, e excluída
da segurança, aprovação e amor. ( Existem muitos outros sentimentos como raiva
e desejo de vingança, mas vamos manter tudo o mais simples possível.) Os
pensamentos e as sensações que surgem podem variar de uma pessoa a outra, de um
caso a outro, mas eles estão aí, afetando nosso estado total de ser.
Agora, é possível ir mais fundo?
Estamos em contato com magoas, tanto atuais quanto que são acionadas
instantaneamente pela memória, não apenas a memória mental, mas também a
memória do organismo? Sensações atuais de magoa automaticamente acessam
lembranças dolorosas armazenadas no cérebro e em todo o organismo desde a
primeira infância. O cérebro e o corpo humanos acumulam e armazenam essas
indefinidamente, principalmente de modo inconsciente. Ao ativar lembranças
antigas, o corpo sente-se exatamente tão atormentado, assustado e zangado
quanto no momento em que esses incidentes aconteceram, anos atrás. A memória
evoca tudo isso - é possível experimentar isso diretamente por si mesmo.
Todos nós, sem exceção, fomos magoados muitas vezes quando éramos crianças
pequenas, e traços de lembranças dessas magoas e das circunstancias e razões
que as acompanharam estão armazenados em todo o nosso organismo. Num momento ou
outro, uma mãe ou um pai amorosos não estavam presentes quando eram
necessários. Num momento ou outro, fomos mal-interpretados, admoestados, com
raiva, advertidos com ameaças, punidos, constrangidos, ridicularizados ou
humilhados. Tudo isso pode sequer ter acontecido diretamente conosco: a
impressão podo ter advindo de sentir a violência cometida contra outros membros
da família ou da comunidade.
Normalmente, nós, adultos, não estamos conscientes do que fazemos quando
estamos com raiva, exasperados ou exaustos. Todos nós tivemos reações violentas
programada em nosso ser desde tempos imemoriais. Perpetuamos automaticamente
aquilo que aprendemos a imitar e que armazenamos na memória desde os tempos mais
remotos: o tom e a qualidade da voz, os gestos corporais, a expressão dos
olhos, o franzir das sobrancelhas e outras expressões faciais. Tudo isso foi
condicionado - aprendido através da imitação de muitas fontes, muito tempo
atrás, quando nos mesmos éramos ainda éramos crianças. E possível observar
crianças mais velhas repreendendo crianças menores exatamente do mesmo modo
como elas foram repreendidas.
Assim, ter sido magoado por uma voz alta e raivosa (que é um trauma para o
organismo do bebê), ter sido criticado asperamente. forçado a fazer alguma
coisa de um modo doloroso ou humilhante, não apenas por familiares, mas por
pessoas poderosas, toda essa magoa está depositada na memória física. E não
está meramente depositada, mas é operante.
Mágoas também são registradas como assuntos não resolvidos que constantemente
tentam emergir de novo. A reação “Olho por olho, dente por dente” constitui um
pro-grama profundamente arraigado em nosso repertório de reações automáticas.
Assim, magoar-se e revidar a mágoa são sentimentos profundamente geminados.
Eles andam juntos. Porém, o importante não é apenas compreender
intelectualmente - dominar a idéia e explicá-la para outra pessoa -, porém
observá-la diretamente conforme ela dentro da gente. Caso isso não aconteça,
nada mudará fundamentalmente. Continuaremos a magoar e ficar magoados.
Estamos examinando a mágoa e percebemos que houve mágoa desde os primeiros dias
de nossas vidas. Podemos não nos lembrar conscientemente dos incidentes
específicos, mas o fato é que a intensidade da mágoa atual reverbera os
registros de magoas passadas. E possível que isso a isso alcance a consciência?
Pode-se ficar espantado, em certas ocasiões, de ficar terrivelmente magoado com
um incidente insignificante, mas a história inteira de mágoas passadas
reverbera na mágoa atual. Manifesta-se agora mesmo em todas as sensações,
pensamentos, emoções, medos, dores e tensões. E possível ver imediatamente, no
momento em que está acontecendo? É possível perceber o impacto caótico que um
incidente insignificante tem neste mesmo instante? Alguém me critica duramente,
e eu acolho a critica como uma condenação final. Para uma criança indefesa, o
contato com pessoa violenta e punidora significava algum tipo de condenação, e
todas as reações de pânico e defesa que surgiam, eram instantaneamente
registradas nas células e nos tecidos do corpo. Um incidente acontecendo agora
e que se conecte com outro, ocorrido no passado, mobiliza instantaneamente
todas essas conexões.
E possível haver consciência da totalidade desse processo quando se é atingido?
Não fugir da magoa, pensar sobre ela, retrair-se do medo e da dor, mas permitir
que a situação se revele, com todos os seus sintomas físicos, sensações,
tensões e pressões, pelo que ela é? Não escapar dela, mas fazer uma pausa
instantânea para sentir, ver e escutar?
Isso só é possível quando não houver fuga para o complexo sistema de defesa que
se desenvolveu com o tempo para nos proteger, ou melhor, para proteger a ideia
de si próprio. O organismo em si não esta ameaçado quando somos criticados
severamente, não é? Então, o que é ameaçado? E possível questionar isso
instantaneamente? Onde esta o perigo? O que protegemos? O problema é auto
proteção? E possível que a energia da consciência derrube os muros da defesa?
Conseguimos chegar ao âmago daquilo que fica magoado quando ficamos magoados?
Defesa significa isolamento, a ausência de relacionamento. Não se pode estar
bem-defendido e ao mesmo tempo estar sensível, estar em contato intimo e
vulnerável com tudo. Isso está muito claro, não é? Isso se aplica tanto ao ser
humano individual quanto a totalidade de uma nação.
Não sabemos, por toda a nossa experiência passada, que não há problema em estar
indefeso e que podemos sobreviver a isso. Não sabemos isso. Tudo o que sempre
fizemos, observamos e aprendemos da experiência foi defender-nos, não somente
num nível físico, mas também psicológico. (Não estamos questionando a
necessidade de proteção inteligente do organismo físico. Estamos questionando a
necessidade de defesa psicológica.) Não sabemos existir sem essa defesa. Quando
éramos bebês indefesas, fomos magoados psicologicamente, e começaram a
desenvolver-se de forma automática. Atualmente, vivemos essa gravação como uma
fita que passa de modo continuo - magoando sem fim ou ficando incessíveis para
evitar a dor. Aparentemente, o cérebro não diferencia ou não pode diferenciar
entre proteção inteligente do organismo e proteção das lembranças acumuladas de
si mesmo. Ele mobiliza-se para proteger lembranças da mesma forma como o faz
para proteger o corpo de danos físicos.
Então, o que é indefensabilidade?
Quando há magoa, é possível a energia acumular-se em indivisa - muito, muito
quieta, aberta, indefesa, Vulnerável? É uma descoberta incrível, quando essa
consciência tem a oportunidade de operar livremente. Não é necessário
defender-se! O que é magoado e defendido é a memória! É possível ouvir criticas
severas com completa atenção, ver e sentir o que fica magoado ou esta prestes a
ficar magoado e não se defender.
É possível chegar a esse ponto além de qualquer explicação intelectual?
Trata-se realmente de ser sem defesa. Trata-se de morrer para a urgência
profundamente arraigada de salvar o “eu”, deixando de lado, sem esforço ou
propósito, a defesa que preme para vir à tona por puro hábito. A defensiva não
precisa continuar - este é o milagre!
Pode passar a sensação de vulnerabilidade. Nunca aconteceu antes, porque a
defesa é tão habitual, tão confiável, embora seja tão isoladora e dolorosa em
suas conseqüências. Contudo, nada de novo pode acontecer enquanto estivermos
enredados em defesa e proteção.
Então, examinando-a, pensando sobre ela, é possível haver, no momento da magoa,
a centelha de atenção que desconecta e mantém em suspenso nosso passado
automático? Arriscar-se em não saber como vai acabar, mas não se defender. Não
desenvolver uma nova técnica - não estamos falando sobre uma técnica. Técnica é
a defesa. Em vez isso, trata-se apenas de ser vulnerável sem saber o resultado.
Não há nada para defender. Quando isso se torna tão claro quanto um céu sem
nuvem, a vida surge sem a dureza e o atrito das couraças. Somos seres vivos,
quentes, amorosos, capazes de ouvir uns aos outros livremente e tocarmos um aos
outros profundamente. Estar em contato completo uns com os outros significa a
ausência de toda divisão entre “eu” e “você”. É a ausência da mágoa e da
defesa. E liberdade.