VALENTE
Não me resta tempo. Na verdade, não quero perder mais tempo...
A intensidade sempre me maltratou. Minha mãe sempre me disse que me
cobro demais.
Distraio-me em uma rotina complexa de sobrevivência e de aventuras.
A solidão sempre foi a fuga da realidade, e o silêncio, meu amigo e
companheiro.
Por mais que a independência sempre tenha sido meu maior objetivo, ela
não seria plena sem a liberdade e a paz interior.
Negociar com a razão, às vezes, é um ato em vão, porque o coração
insiste em desviar as funções e as emoções. Na verdade, o Universo nos
atropela, porque a razão explica, define e propõe, mas é o coração que faz
valer a pena a jornada, quando aceitamos que o caminho precisa ser apreciado e
que sempre existem novos contextos.
Então, na busca por uma paz interior plena, apego-me à aceitação, talvez
o maior aprendizado da humanidade. O ego nos leva à dependência e ao apego
àquilo que nos transborda de imediato. Mas como viver sem aquilo que tanto
ansiamos? Como aceitar o não e, ainda assim, ser altruísta o suficiente para
acreditar que o melhor está por vir?
Nós, seres humanos, não possuímos fundo. Por mais plenos que estejamos,
ainda queremos. E como queremos...
Existe uma dor profunda em amar... Simplesmente amar... Amar sem esperar
nada em troca... Amar e deixar ir, deixar fluir... Amar e deixar que o Universo
providencie. Amar na convicção de que está tudo certo e de que aquilo que me
pertence já existe aqui... Aqui e agora, no presente.
Aceito, assumo e liberto...
Simplesmente amo!
Há manhãs em que sou como o girassol, seguindo o astro-rei, vibrando e
absorvendo sua luz. Um oportunista que se esquece da própria beleza e vislumbra
a Luz maior.
Outras vezes, sou como a noite sem lua, envolta em uma névoa densa, que
só deseja não ser vista, não ser reconhecida e que anseia apenas pelo silêncio.
Dor e paz, melancolia e ansiedade, ego e apego... Crenças...
Deixe ir, deixe estar...
Sustente o desconforto...
O amor existe em si, assim como a paz.
O restante é apenas uma ilusão do ego, que, em algum momento, serviu
para nos defender, mas que agora só serve para nos limitar...
Acolha-se, conecte-se, transborde, aproveite o caminho, esteja
presente... Simplesmente ame e transcenda em amor. Distribua o amor em sua
plenitude.
Não espere nada. Deseje, mas não exija. Semeie o seu jardim. Não perca
tempo!
Os despertos para o amor nunca temem. Às vezes, erram por amar demais,
mas sempre em nome do amor e por amor.
Por: Lucileyma Carazza
Uma observação literária: o título “VALENTE” combina muito bem com a mensagem. O texto fala de uma coragem que vai além de enfrentar o mundo: a coragem de aceitar, sentir, soltar e continuar amando. ❤
Estudos
e reflexões: Jung
O ego e o apego na perspectiva de Jung:
Para Jung, o
ego é o centro da consciência. É a estrutura que nos permite reconhecer quem
somos, construir nossa identidade e nos relacionar com o mundo.
Entretanto,
o ego não representa a totalidade da nossa psique.
Jung
estabelece uma distinção entre:
Ego: aquilo
que reconhecemos conscientemente como nosso eu.
Self
(Si-mesmo): a totalidade da psique, abrangendo consciente e inconsciente. É um
princípio de integração e totalidade.
O problema
começa quando acreditamos que somos apenas o nosso ego e passamos a organizar
toda a nossa existência em torno das suas necessidades.
É nesse
contexto que podemos compreender o apego.
Por exemplo:
Apego à
necessidade de ser amado.
Apego à
aprovação e ao reconhecimento.
Apego a uma
pessoa que acreditamos ser responsável pela nossa felicidade.
Apego a uma
determinada imagem de nós mesmos.
Apego ao
controle dos acontecimentos.
Apego às
expectativas sobre como a vida deveria acontecer.
Em muitas dessas situações, não estamos apenas amando algo ou alguém: estamos tentando preservar uma condição emocional que consideramos necessária para nos sentirmos inteiros.
Jung
diferencia o ego do Self justamente para mostrar que nossa totalidade não
depende exclusivamente daquilo que conseguimos controlar conscientemente.
O apego e as projeções inconscientes:
Aqui
encontramos uma das contribuições mais interessantes de Jung.
Às vezes,
não nos apegamos somente à pessoa que está diante de nós, mas também àquilo que
projetamos nela.
Podemos
projetar em alguém:
Nossa
necessidade de segurança.
Nosso desejo
de completude.
A imagem do
amor idealizado.
A esperança
de sermos finalmente compreendidos.
Partes de
nós mesmos que ainda não reconhecemos.
Assim, a
pessoa passa a representar muito mais do que ela realmente é.
E quando ela
se afasta, não sentimos apenas sua ausência. Podemos sentir que perdemos também
aquilo que depositamos nela.
Esse
mecanismo está relacionado ao conceito junguiano de projeção.
O processo
de amadurecimento envolve reconhecer essas projeções e recuperar para nós
mesmos os conteúdos psíquicos que depositamos no outro.
A individuação: aprender a amar sem se perder.
Um dos conceitos centrais de Jung é a individuação.
É o processo
pelo qual nos tornamos quem somos em nossa totalidade, integrando aspectos
conscientes e inconscientes da personalidade.
Isso não
significa tornar-se independente de todos, deixar de precisar de afeto ou viver
isolado.
Significa não
depender exclusivamente do outro para reconhecer a própria existência e
encontrar sentido na vida.
É
compreender que podemos amar profundamente sem transformar o amor em posse.
Podemos
desejar sem exigir.
Podemos
sentir saudade sem nos aprisionar à ausência.
Podemos
permitir que alguém siga seu caminho sem interpretar isso como uma perda da
nossa própria identidade.
A
individuação não elimina os vínculos: transforma a maneira como nos
relacionamos com eles.
O ego quer possuir; a consciência aprende a acolher
Podemos fazer uma interpretação inspirada na psicologia junguiana:
|
Quando o
ego está identificado com o apego |
Quando desenvolvemos
maior consciência |
|
Quero que
fique. |
Aceito que
o outro é livre. |
|
Preciso
ser correspondido. |
Reconheço
meu sentimento sem exigir reciprocidade. |
|
Tenho medo
de perder. |
Compreendo
que a impermanência faz parte da vida. |
|
Quero controlar. |
Aprendo a
confiar e a tolerar a incerteza. |
|
Preciso do
outro para me sentir completo. |
Reconheço
minha própria individualidade. |
|
Resisto à
realidade. |
Aprendo a
acolher o que é. |
Isso não
significa que o sofrimento desapareça. Significa que deixamos de transformar
todo sofrimento em uma luta contra a realidade.
Existe uma diferença entre amar e estar apegado?
Essa é uma
reflexão especialmente bonita.
O amor
permite reconhecer a individualidade do outro. O apego excessivo pode
transformar o outro em uma extensão das nossas necessidades.
O amor
comporta liberdade. O apego excessivo frequentemente busca garantias.
O amor pode
coexistir com a ausência. O apego excessivo pode interpretar a ausência como
uma ameaça à própria existência.
E talvez uma
das grandes tarefas do amadurecimento psicológico seja aprender a reconhecer
quando estamos amando alguém e quando estamos tentando preencher, por meio
dessa pessoa, algo que ainda não conseguimos encontrar em nós mesmos.
Aceitar é
reconhecer a realidade sem precisar negá-la.
Assumir é
responsabilizar-se pelos próprios sentimentos, desejos, projeções e escolhas.
Libertar é
compreender que amar não significa possuir, controlar ou determinar o destino
do outro.
E amar é
permitir que o sentimento exista sem necessariamente transformá-lo em
exigência.
Talvez a verdadeira liberdade não esteja em deixar de desejar, mas em deixar de ser prisioneiro daquilo que desejamos.
O ego deseja garantias. A vida oferece possibilidades.
O ego busca permanência.
A vida nos apresenta transformações.
O ego quer
respostas. A consciência aprende a conviver com perguntas.
E a
individuação nos convida a integrar essas contradições, sem precisar negar
nossa humanidade.
Será que, muitas vezes, aquilo que chamamos de dificuldade de desapegar não é, na verdade, a dificuldade do ego em aceitar que não temos o controle sobre aquilo que amamos?
Talvez a liberdade interior comece justamente quando compreendemos que não precisamos deixar de amar para deixar de possuir.
E essa é
uma distinção profunda: desapegar não é amar menos. É permitir que o amor deixe
de ser uma prisão.
️
